domingo, 24 de setembro de 2017

Sociedade infantil!?


Recentemente, uma exposição de arte: Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira; exposta em Porto Alegre, que reunia 270 trabalhos de 85 artistas, com nomes renomados como Candido Portinari e Adriana Varejão, foi cancelada após uma onda de protestos nas redes sociais. As críticas não ficaram somente no mundo virtual. Rolou também um boicote ao banco patrocinador. Que perdeu vários clientes por conta da exposição.

A polêmica se deu devido à exposição abordar a temática LGB, questão de gênero e a diversidade sexual. Fazendo com que os conservadores saíssem do armário vestindo trajes de inquisidores. Definindo o que é arte e o que pode ser exposto.

Essa “censura” foi muito debatida. Participei de vários debates. Defendendo a liberdade de expressão. Garantida pela constituição no artigo 5° item IX: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Sem argumentos, quem era a favor do cancelamento da exposição utilizava da inocência das crianças para justificar a “censura”. Questionando: você levaria seus filhos nessa exposição?

A tática de usar criança é muito comum. Inclusive utilizada por traficantes. Quando a polícia entra na comunidade eles pedem que os moradores, em especial as crianças, ocupem as ruas para dificultar o acesso dos policiais. Com isso facilita a fuga deles. Isso nunca acaba bem. Na grande maioria das vezes, as crianças ficam no meio do fogo cruzado e acabam sendo vítimas de “balas perdidas”. Em seguida, os moradores descem para o asfalto para protestar tacando fogo em ônibus. No caso da exposição de arte, os manifestantes tacam fogo nos quadros e obras - como fazia a inquisição.

Quem se esconde atrás de crianças faz isso para não mostrar sua intolerância e preconceito. São conservadores que tentam impor um padrão de sociedade. Não podemos olhar a arte exclusivamente com o olhar infantil. Imaginem uma sociedade onde todo o artista, músico, pintor, escritor, poeta antes de fazer sua obra tivesse que olhar exclusivamente para o mundo infantil Que tipo de arte e sociedade teremos? Vamos imaginar.

Na questão da música, não teríamos o funk, forró, lambada, tango, samba (carnaval) e outros estilos musicais que tratam da questão da sensualidade e sexualidade. Escutaremos somente músicas religiosas (gospel) e infantis: Xuxa, Patati Patatá, Turma do Balão Mágico...

No campo audiovisual, jogos de vídeo games somente: Mario Bros, Sonic, Barbie... Nada de: Street Fighter, Mortal Combate, God of War, GTA... . Na questão dos filmes, nada de guerra, policiais, romances, eróticos, pornográficos... Vamos assistir apenas filmes religiosos e desenhos animados. Mas nada do Pica-pau vestido de mulher. Muito menos Pernalonga beijando o Hortelino. Pois podem interferir no comportamento sexual das crianças.

Na produção de livros, apenas contos infantis. Quadros apenas os que mostram a família e os bons costumes. O próximo passo será a censura à internet. Afinal, raramente uma criança vai a uma exposição de arte. Por outro lado, têm acesso livre na internet. Nesse exato momento uma criança pode está acessando um site pornográfico. E aí? Devemos pensar nas crianças. Vamos acabar com a internet. Assim estaremos protegidos.

Pode parecer brincadeira, mas se a gente for seguir os conservadores teremos de volta a inquisição. Daqui a pouco estaremos tacando fogo em livros e quadros em praça pública novamente. Voltaremos com a censura. Acabando até mesmo com a internet. É isso que queremos?

Claro que não! Por isso a importância de defendermos a liberdade de expressão. A censura deve ser individual. Eu me autocensuro e censuro meu filho. Não o artista. Não posso obrigar um artista fazer uma obra pensando no meu filho. Quem sou eu e meu filho para definirmos o que deve ser publicado e exposto? Uma criança não pode servir como critério de censura. Pois se isso acontecer teremos uma sociedade infantil.